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PAUTA(*) NO ALÉM
Em março de 1990, eu me encontrava em Nantes, cidade às margens do Rio Loire, cerca de 400 km da capital, quando me caiu nas mãos a edição especial de um periódico parisiense. (Lá estava eu a convite do escritor Jean-Paul Mestas, um desses preciosos confrades que a República das Letras faz, por vezes, emergir e brilhar diante de nossos olhos.) A matéria versava sobre um dos meus temas prediletos – a morte. Ou melhor: a reportagem, fartamente ilustrada, a estender-se da capa à última página, discorria sobre fenômenos concernentes ao retorno dos mortos. Fantasmas? Não, nada disso. Algumas pessoas tiveram o privilégio de transpor os misteriosos umbrais do infinito e voltar, sãs e salvas, para relatar a raríssima experiência.
Desde então, minha fixação passou a ser esta: quando chegar o momento da morte (mas antes que no duro chão me enfurnem a carcaça) desejo regressar, mesmo que seja apenas por algumas horas. E reportar tudo. Será um triunfal retorno aos tempos da atividade jornalística, que, para mim, foram marcantes, memoráveis, os mais vibrantes e coloridos momentos do meu viver.
Voltei-me para os céus em reiteradas súplicas. Por vários anos. Como explicar ou justificar tal obstinação, não sei, nem isso se faz necessário. Até que certa noite acordei com agudas dores no peito. Meus gemidos chegaram ao quarto da jovem filha (sou viúvo há quase dez anos), que, num átimo, veio ao meu encontro. Ela sustentou-me como pôde até o seu veículo e acelerou rumo ao hospital.
Antes, porém, que chegasse à Emergência, senti a irreversível parada cardíaca – e restou ao médico declarar o óbito. Acompanhei a aflição com que buscava reativar a circulação sangüínea, condoeu-me a angústia e o desespero de Mariana. Do alto examinei, meticulosamente, o corpo que restou estendido na maca. O semblante era de plena tranqüilidade, a palidez não lhe empanava a ternura e a cabal dignidade. Levaram ao necrotério os chamados restos mortais, os parentes e amigos foram chegando – e eu a tudo assistia, com a maior naturalidade. Não indiferente ao singular episódio, embora conformado, como se tudo fosse mesmo aguardado, nada houvesse de surpreendente. Afinal, não se tratava da resposta às insólitas e impertinentes súplicas? Eu não anelava pela lucidez na experiência da morte?
Em dado momento, um sereníssimo ser (anjo? serafim? indefinido espírito? Inexplicável força?), de túnica alva, tomou-me pelas mãos.
– Vamos! Convidou-me em tom docemente imperativo, como se não fosse uma determinação categórica. Meu estado de espírito a essa altura transitava entre perplexidade e inocultável euforia.
Fez-se inevitável a lembrança do túnel dos filmes de ficção científica. Era exato como um deles o espaço a que me conduziu o cicerone extraterreno.
As metáforas dos poemas que li na terra, desde infante, as figuras sobre a eternidade e o infinito, consubstanciavam agora a mais pura e cristalina realidade. E eu sorria. “Bem que eu suspeitava que era algo assim”, consignei suspirante. Tudo o que passou a desfilar perante minhas retinas e tímpanos era de estonteante perfeição: rostos, clarões, paisagens, rumores, embriagador cenário, diálogos, solilóquios a causar-me, a um só tempo, a sensação do inédito e do já-visto. Algo me dizia que se tratava do protótipo, irretocável modelo, do quando a vida me apresentou, em meus quarenta janeiros. Depois de eu me haver deslocado, curiosíssimo, para todos os quadrantes, o misterioso ente tocou-me nos ombros ordenando, com a ternura de sempre:
– Vamos voltar?
– Ah! Não, não! – reagi. Que é isso?! Quero permanecer...
Preciso chegar ao que me falta conhecer, pressinto ainda haver muito... Quero ser meticuloso, meus leitores apreciarão...
O augusto companheiro limitou-se a sorrir. Seus lábios, embora semicerrados e agora silenciosos, eram portadores de extraordinária força, e me envolviam e projetavam-me novamente rumo ao túnel. Num átimo, regressamos.
– Papai, papai, graças a Deus! supúnhamos houvesse você morrido – ouvi, e logo identifiquei a procedência das palavras.
A naturalidade com que Mariana me falava atenuou toda a perplexidade e esvaziou o espanto que ameaçava cair sobre os presentes.
– Parece que foi catalepsia, alguém opinou.
Levantei-me com a ajuda de dois ou três amigos, e no carro pilotado por Mariana tomei o caminho de casa, para memorável comemoração.
No dia seguinte, a antegozar suposto e retumbante sucesso, levei ao vetusto jornal da cidade a matéria, farta de minúcias sobre a fantástica pauta (*). A surpreender-me, porém, o editor leu apressadamente, no sorriso tênue dose de ironia, e com seca sugestão encerrou a conversa.
– Como ficção, penso que sua história pode interessar. Transforme isso em conto e encaminhe o texto ao suplemento literário.
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(*) Pauta. “Nos meios de comunicação e divulgação, roteiro dos fatos que devem ser dados pela reportagem...” Novo Dicionário, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
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